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Curta-metragem ‘Eu, Leo’ será exibido para famílias do Colégio Xingu

Texto: Miriam Gimenes

Um garoto autista em busca de pertencimento encontra, entre colegas surdos, um espaço de acolhimento e novas possibilidades de compreender a si mesmo. Essa é a história de Eu, Leo, curta-metragem brasileiro dirigido por Ricardo Cioni Garcia e produzido pela Butikin Filmes, que será exibido para a comunidade do Colégio Xingu no dia 29 de agosto, às 10h. A escolha do local não foi por acaso: o Xingu serviu de cenário da produção e também ganhou espaço no elenco. Entre os atores escolhidos está Guilherme Faci Pereira, de 13 anos, aluno da instituição e protagonista do filme.

A presença do Xingu na produção começou antes mesmo das gravações. A diretora da escola, Viviane Gonçales Passarini, foi procurada pela equipe do filme depois que um acompanhante terapêutico de um estudante comentou com o cineasta sobre o trabalho desenvolvido no colégio. “Ele me falou que conhecia um cineasta que estava procurando uma escola para ser cenário de um filme. Eu disse que sim, ele me trouxe uma proposta por escrito, li o roteiro e fiquei encantada com o texto”, conta Viviane.

Ricardo fez então uma visita técnica à escola, acompanhado pela diretora, que apresentou os espaços e também elementos que fazem parte da identidade do Xingu. A escolha do colégio, no entanto, foi uma surpresa para Viviane. “Fiquei muito feliz porque o Ricardo não olhou só para o espaço físico, mas também foi muito sensível ao diagnóstico do que acontece no nosso dia a dia”, afirma.

A participação da escola foi além de servir como cenário. O processo de seleção de elenco também envolveu estudantes com deficiência, entre eles crianças autistas e com deficiência auditiva, de dentro e fora da instituição. Para Viviane, durante os 15 dias de filmagem, em julho de 2025, compreendeu a dimensão do projeto, ao acompanhar de perto a chegada da equipe e o cuidado dedicado às crianças e às famílias. Ao lembrar da estreia do filme em São Paulo, ainda se emociona. “Foi um dos maiores presentes da minha vida profissional”, diz. 

E entre as crianças selecionadas estava Guilherme. Para sua mãe, Márcia Viana Faci, a oportunidade surgiu de maneira inesperada. Ela trabalha na área de educação e se especializou no tema a partir da própria trajetória com o filho. Quando recebeu a indicação para que ele participasse do teste, não imaginava que dali sairia o protagonista. “Marcaram o teste no Xingu, fomos sem pretensão nenhuma. Tinham quatro autistas e ele fez o teste muito bem”, lembra.  No mesmo dia, à tarde, recebeu a confirmação de que ele havia sido escolhido. 

O desafio era grande: Guilherme é autista nível de suporte 1 e precisou interpretar um personagem nível de suporte 3. A preparação e as gravações tiveram uma rotina intensa. A maior parte do elenco era formada por pessoas surdas, assim como aproximadamente 90% da equipe envolvida na produção. A experiência, acrescenta Márcia, foi uma das partes mais importantes do processo. “Foi muito positivo. A terapia que eu gastei dez anos fazendo, eles fizeram em quinze dias. Ele melhorou muito”, conta.

O impacto ultrapassou as gravações. Acostumado, segundo a mãe, a ocupar muitas vezes o lugar do excluído ou do infantilizado, Guilherme passou a experimentar uma nova posição: a de protagonista. “Ele ganhou até uma bolsa para atuar. Fez muito bem para ele, para a autoestima. O ego vai lá em cima. Todo mundo querendo tirar foto.” Ele está saltitante, acrescenta, mas com pé no chão.

A trajetória do estudante também aproxima a ficção da realidade. Guilherme passou por sete escolas ao longo da vida, e algumas das situações retratadas no curta conversam com experiências que ele próprio viveu. E foi no Xingu que essa história ganhou um capítulo mais feliz. Viviane espera que o curta alcance novos públicos e amplie a discussão sobre inclusão. “Torço para que esse filme consiga muitas chancelas para que possa chegar a canais como o Curta!, Canal Brasil e Canal Futura e leve essa reflexão, que é muito do nosso trabalho, o de defender as práticas inclusivas, defender uma escola onde a diversidade tenha espaço e acreditar nas potências das crianças, retirando barreiras.”

Para Márcia, a experiência também trouxe um novo olhar sobre o caminho percorrido pelo filho. Guilherme não falava até os seis anos e passou por diferentes profissionais e escolas ao longo do desenvolvimento. Para ela, o diagnóstico não significou um momento de luto, mas uma mudança de perspectiva sobre o futuro. “Entendi que tinha que deixar meu filho autônomo, que eu não era para sempre. Usei isso como uma resiliência para lutar com ele”, afirma. Hoje, Márcia diz que procura olhar primeiro para aquilo que Guilherme consegue fazer. “Trabalho com as habilidades, não com as deficiências. Penso muito positivo, sempre soube que ele era diferente e sei que ele vai brilhar.” Não há dúvidas.