Texto: Miriam Gimenes
O letramento racial é um tema urgente e necessário, não apenas no ambiente escolar, mas em toda a sociedade. Como forma de contribuir com esse aprendizado, o Colégio Xingu promoveu um encontro formativo online sobre o tema, conduzido pela Assistente Social e mediadora Camilla Dias. Pós-graduada em docência em Literatura e Humanidades, ela também é pesquisadora de literaturas negro-brasileiras e produtora de conteúdo independente. Ao longo de quase duas horas de conversa, foram abordados temas como racismo, a valorização da diversidade de culturas e costumes e o papel da educação na construção de práticas antirracistas.
A iniciativa também marcou um passo importante no diálogo com a comunidade escolar sobre o assunto. “É a primeira vez que realizamos um letramento racial com as famílias. Temos feito esse trabalho internamente com a nossa equipe e, diante de algumas situações tristes que infelizmente ainda acontecem nas escolas, entendemos que este é um caminho para ampliar a conversa e refletir sobre o que pensamos e queremos construir juntos sobre o tema”, afirmou a diretora da escola, Viviane Passarini.
Camilla iniciou a formação citando uma pesquisa da Folha de S.Paulo, realizada na década de 1990 e ainda bastante atual. O levantamento apontava que 90% das pessoas diziam conhecer alguém racista e reconheciam a existência do racismo. No entanto, quando questionadas sobre si mesmas, negavam ter atitudes racistas. “Essa questão mostra para gente o quanto essa questão racial no Brasil é cheia de desafios, e está principalmente ligada à falta de conhecimento de como funciona o racismo enquanto sistema de opressão e essa dinâmica na sociedade”, enfatizou.
A falta de conhecimento, explica Camilla, também faz parte de uma estratégia política - não partidária, mas estrutural - que permite que desigualdades e preconceitos se perpetuem sem serem questionados. “A maioria da população desconhece a história do nosso próprio país, e isso não acontece por acaso. Existe um projeto de Estado brasileiro para que esse desconhecimento se mantenha”, afirma. Por isso, ela destaca que, para o ativismo social negro, o letramento racial é um passo essencial na construção de uma educação antirracista. Informação e conhecimento são, portanto, ferramentas fundamentais no enfrentamento do preconceito.
Essa reflexão passa também pela forma como a história tem sido ensinada nas escolas ao longo das décadas. Segundo Camilla, ela costuma ser narrada majoritariamente pela perspectiva das classes dominantes. “Raramente aparece o olhar de quem foi explorado ou vítima de violência. Isso acaba nos ludibriando e construindo, em nossa cabeça, um imaginário difícil de desconstruir, mas estamos nesse processo.” Ela acrescenta que o Brasil ainda é um país marcado pelo racismo, sexismo e machismo, além de diversas outras formas de violência direcionadas às chamadas minorias que, na verdade, representam a maioria da população.
Diante desse cenário, o letramento racial se torna uma ferramenta fundamental de transformação. “Ele abre a possibilidade de refletirmos sobre as diferentes formas de violência que atingem diversos grupos da população”, explica. A escola, segundo ela, tem um papel central nesse processo. “É um espaço fundamental de socialização e aprendizado, onde as crianças passam grande parte da vida. É um dos principais agentes na formação dos indivíduos e é nesse ambiente que os alunos têm contato com valores como cidadania, cultura e diversidade.”
Ao longo da formação, outros temas foram discutidos. Camilla falou sobre a inexistência do chamado racismo reverso, compartilhou situações de racismo vivenciadas por ela - inclusive recentemente - e por outras pessoas negras, além de refletir sobre a construção de estereótipos. Também apresentou os fundamentos do letramento racial, que incluem o reconhecimento da branquitude, a compreensão de que o racismo não pertence apenas ao passado, o entendimento de que ele é socialmente aprendido, bem como a ampliação do vocabulário racial e a interpretação de códigos racistas.
Nesse contexto, ela também explicou diferentes formas de manifestação do racismo, como o institucional (quando instituições reproduzem privilégios e desigualdades com base na raça) e o racismo recreativo, que se manifesta em atitudes ou comentários preconceituosos disfarçados de piada. Além disso, abordou a discriminação, entendida como o tratamento injusto ou negativo dirigido a alguém por pertencer a determinado grupo.
Para a especialista, o enfrentamento dessas práticas passa necessariamente por uma postura ativa da sociedade. “O antirracismo tem uma dimensão ética de denúncia. Essa também é uma responsabilidade das pessoas brancas, já que o racismo é uma construção histórica da branquitude. Por isso, é papel delas atuar diretamente no enfrentamento dessas violências. Não se trata de falar pelos negros, mas de se posicionar a favor deles e de qualquer pessoa que esteja sofrendo algum tipo de discriminação”, afirma.
Ao final do encontro, Camilla alertou para o uso de vocabulários racistas no cotidiano, indicou leituras para quem deseja se aprofundar no tema e abriu espaço para ouvir relatos e dúvidas de pais e responsáveis. A conversa despertou também o desejo de que o tema continue sendo discutido em outras oportunidades. “Contrariando o sistema, seguimos aqui firmes. Espero que a gente saia deste encontro com ainda mais vontade de transformar”, concluiu.
